sábado, 11 de fevereiro de 2017

Chupar laranja


aos vendedores de laranja,



o cheiro sente-se ao longe, no aproximar de passos empoeirados há um homem que descasca laranjas.
a pele desliza redondamente na faca. a espiral da casca repousa sobre o carrinho de mão.
a faca volta a tocar a laranja, aproxima-se do topo, desliza levemente e levanta-lhe a tampa.
a laranja vai até aos lábios em troca de uma moeda.
ele vai e volta até que as laranjas acabem.

sábado, 28 de janeiro de 2017

ao encontro de mim

para o meu eu,




o desafio andava no e-mail há algum tempo, de vez em quando ressurgia, mas a sobreposição de actividades não deixava que o aceitasses - e eu que tanto queria experimentar algo assim: ficar longe da rotina e olhar para mim e para o ano (ou os anos) que agora começa.
o desafio era fazê-lo num ciclo criativo e afastada do dia-a-dia, mas não afastada do mundo, isto é convivendo com as pessoas do local olhando para dentro de nós mesmos. complicado de entender? não tu entendias bem, tu sabias que nunca estamos isolados e tens formas de olhar para ti com o mundo à tua volta.
e no último momento o mundo organizou-se para que que pudesses participar nesse retiro criativo, com yoga e meditação.

acordaste sem o peso do despertador da semana, tomaste o pequeno-almoço e organizaste a casa antes de apanhar o barco. procuraste gente com um tapete às costas, mas depressa percebeste que o teu processo de busca interior começava ali sozinha no meio de tanta gente, a fazer algo que desafia os teus medos: andar de barco.o tempo de viagem é curto, sabes disso. registaste a paisagem, deixaste que o sol te invadisse e chegaste ao destino.

no meio da multidão uma cara conhecida acena-te para te levar até ao sítio onde vais ficar. de quarto em quarto a tua escolha é-te apresentada.ficarás sozinha num mundo verde e branco, rodeada de buganvílias cor-de-rosa - que mais poderias querer. deixaste-te ficar sozinha na varanda, inundaste-te de sol antes de te inundares com o movimento das ruas, de trocar palavras com negociantes, de preencheres o teu olhar, de abraçares as outras mulheres que tinham acabado de chegar para o fim-de-semana.



o grupo estava completo, o sol ia-se escondendo em Dakar ao ritmo das asanas. as crianças olhavam curiosas para tais movimentos do corpo, riam enquanto cada uma mantinha o equilíbrio.a noite chegou na margem de sabores e terminou numa criativa chávena de chá. a descoberta? estava lá. sim, estava lá no interior de cada uma, em cada palavra escrita ou partilhada porque nos processos criativos não pode haver obrigação nem o silêncio é um lugar de todos.no silêncio quebrado pelo chilrear das aves nascia o sol, ajustavam-se os sonhos ao acordar, estendia-se o corpo nas asanas. o sol subia do outro lado da ilha. as gentes tomavam café e começavam a rotina do dia. o pequeno-almoço de pão, doce, manteiga, café e sumo de bissap ia enchendo a mesa depois do banho. o sol enchia o pátio e as ideias fluíam do coração para o papel.


a música enchia o espaço e as folhas enchiam-se de cores, as mesmas das saias rodas, que caminharam até ao último processo criativo: pintura sobre o vidro. 
tudo parecia fácil: as latas de tinta, a tinta da china, os pincéis, um lugar inspirador, corações cheios de certeza. 


o desafio estava em saber que se deve desenhar ou escrever ao contrário porque é desse lado que o vidro fica exposto. como na vida descobrir que os traços a tinta da china não se apagam, permanecem como permanece qualquer caminho interior.
a noite chegava no cais e com ela o barco de regresso à rotina dos dias. 
e tu sabes que qualquer processo criativo e de planificação precisa do próximo passo: a implementação, a monitorização. 
é um processo em movimento: bem-vindo 2017, bem-vindo o ano do galo que hoje se celebra a Oriente.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Dezembro


Ao meu Dezembro,

Dezembro foi introduzido por Novembro e pela partilha de sabores no escritório.
Estava tudo apalavrado há algum tempo, mas na minha cabeça europeia não estava confirmado e não estando confirmado o bacalhau ainda estava cheio de sal, quando o telefone tocou no final do dia. Sim, claro que iria fazer o prato português prometido. Pois claro que ainda tinha de correr supermercados à procura de ovos e azeitonas e pensar em truques para tirar o sal ao bacalhau.

No dia seguinte, lá estava ele, o bacalhau à Brás a fazer companhia ao Etojai, rodeados de queijo e chouriço, a respeitar as diferentes religiões sobre uma toalha de lenços de namorados.




Dezembro estava ali a espreitar, cheio de eventos. Cheio de ventos e de areias.
Os arredores da cidade tornavam-se deserto, anunciavam o nascimento dos profetas, anunciavam uma nova idade.



















Este ano o nascimento de Mahomet celebrou-se em Dezembro, chamam-lhe o Maouloud ou Gamou. É dia de celebrar, de orar, de reflectir sobre a generosidade, de perdoar, de amar o outro. Os mesmos valores associados ao nascimento do outro profeta, Jesus.

Por cá, no Gamou não se trocam presentes. Num país que assinala as festividades das duas religiões, os presentes são trocados no Natal.


 







Mas na hora de trocar presentes na manhã de Natal, já eu sentia o calor do frio, o doce das rabanadas e das migas.
Já brindávamos à vida em família. Já trocávamos o bolo-rei por uma caminhada até S. Silvestre.



 



Dezembro meu, continua a ser vida, renovação e tradição.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

os homens da minha rua

para os homens das ruas do mundo,

os homens da minha rua sentam-se no vão das escadas, trocam palavras por café touba entre o fumo de cigarros espaçados,


os homens da minha rua vestem-se a rigor, palmeiam ruas a pé ou de carroça, vendem produtos ou recolhem o que já não cabe em casa,

os homens da minha rua marcam as horas da oração e enchem as ruas à sexta-feira,

conduzem táxi e oram no inesperado da rua,

guardam casas e gerem lojas,



vendem frutas e espetadas

os homens da minha rua cumprem o ritual da attaya no calor do tempo: três copos do amargo doce

domingo, 27 de novembro de 2016

depois da chuva, o jantar

para os amantes de chuvas tropicais,

era Outubro, era Moçambique, era tempo de chuva
era um hotel de reconstrução da China







abriu as cortinas e deitada sobre a cama deixou-se levar pela saudade do pôr-do-sol,
pela janela aberta o vento chegou até ao corpo, abeirou-se no olhar levantado do computador




levantou-lhe o queixo com a mão esquerda... o vento soprava forte, o vento levou-a até à janela... os trovões aumentavam, os raios aproximavam-se, o estrondo aumentava,

lembrou-se de casa...

... alegrou-se num sorriso, por ter de volta a sua chuva tropical num quarto cheio de impormenores de construção e decoração,


abriu a janela, sentiu as gotas de chuva e o vento no cabelo solto. os trovões ribombaram no coração, fechou a janela,

a rua enchia-se de água, virava rio,
a barriga enchia-se de fome, virava barco,
a cabeça lembrava-se das bolachas e das maçãs na mala...

voltou à cama, comeu o que estava na mala,

a chuva passou... a noite era fresca à hora do jantar


sábado, 26 de novembro de 2016

dona flor e seu(s) mar(idos)

para os que têm a leve ideia de ser meu marido,

há duas curtas conversas que se repetem. Uma de maridos, outra de futebol, dependendo do atrevimento do interlocutor, às vezes acontecem no mesmo parágrafo.


Em dias de sol ou de areia, aproximam-me, chamam cumprimentam, correm atrás, saúdam, de acordo com a hora do dia e a circunstância e às vezes seguem directo para um "és bonita" e eu que acredito que o espelho não me engana agradeço cordialmente, já a imaginar a próxima frase.

Com mais ou menos enredo a pergunta chega: "És casada?" - e eu respondo na cordialidade dos dias. Sem conversas longas e explicações.

As respostas positivas são perseguidas por outra pergunta: "português ou senegalês?".


Escolho o mais fácil do enredo - português - e num jeito de pressa deixo os pensamentos no ar. 

Houve até quem já perguntasse há quantos anos... imaginei-me a não perceber a pergunta, mas outra reforçou "dois ou três?"... debaixo de um guarda-chuva penso que três significará um casamento mais sólido e evitará mais perguntas inesperadas. Sou salva pelo táxi que chega..mas quem disse que os taxistas não fazem perguntas para além de como chegar ao destino. Há dias, do nada um saca da frase elogiosa. Insiste que é uma pena eu ter marido porque ele era solteiro e procurava uma Toubabe como eu - fez tal descoberta em dez minutos de caminho cheios de silêncio cortados por vire à esquerda, vire à direita... Fazer o quê quando o Jorge Palma podia cantar: "andas aí a quebrar intenções..."?!

Nesta altura, a areia voa e povoa campos de futebol, os mesmos que adorariam que recebesse os pés mágicos de Cris, como é familiarmente chamado Cristiano Ronaldo. O nome que aparece depois de descortinada a minha nacionalidade e leva a conversas de futebol ou a curiosidades semi-previstas.

É um problema o Cris não vir jogar ao Senegal, é um problema de outra dimensão ser "casada" (até o vizinho debaixo pensava que eu morava na casa do de cima) com um marido em qualquer outro continente do mundo... 

Se estão parados nas reticências a pensar porque não foram convidados para nenhum casamento então é porque não assumi nenhum cometimento (ou compromisso, como aprendi a dizer em Moçambique) e o sonho do meu mano ainda não se realizou...


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

ela

para ela que me ajuda em casa,

Ela tem o nome de uma das filhas do profeta, tem o nome da minha mãe, o nome que eu quase estive para ter, tem nome da mãe do mundo ainda que não seja mãe de ninguém.
Como de outras vezes, no início da semana disse-me que na sexta-feira não viria. Como sempre faz quando percebe que eu conheço um pouco da cultura, riu-se quando lhe perguntei se ia ao Magal de Touba.
Respondeu que sim, falámos da ida.


Touba fica a uns quantos quilómetros de Dakar e por lá, todos os anos, há uma peregrinação, para a qual vem gente de vários pontos do país e do mundo.
Esta celebração é organizada pela comunidade mouride para prestar homenagem ao seu fundador, assinala a data da sua partida para o exílio - é o Grand Magal de Touba. O Petit Magal marca a data da sua morte.
É um tempo destinado à leitura do Corão e dos Khassaides (os escritos do fundador), à acção de graças, através da partilha do alimento. É um tempo destinado à oração e interdito à música.

Ela voltou falámos da partida de manhã cedo num autocarro cheio de gente - como o que vi da minha janela cheio de gente, de colchões e de objectos de cozinha. Do regresso tarde na noite.

Falámos das coisas de casa e dos pequenos bichos que aparecem. Das formigas que a esta hora estavam tímidas e mais uma vez voltei a ouvir: "É bom ter formigas em casa". Já me explicou sem saber explicar que formigas são bom sinal, que há casas onde não aparecem.



Eu fico só  a pensar no quanto é bom, no quanto elas gostam de repelente caseiro para baratas. Bebemos café e comemos uma sobremesa que comprei. Pergunta se fui eu que a fiz e eu pergunto-lhe se experimentou os crepes, para os quais lhe dei a receita. Diz que ainda não. Digo-lhe que devia aprender a ler, diz que um dia vai aprender.
Pergunto-lhe pelo dia no aniversário, diz que se esqueceu, que foi na Páscoa. Digo-lhe que a Páscoa muda todos os anos, diz-me o ano em que nasceu (um antes de mim), diz o mês, mas não sabe do dia, tem de ver no cartão de identidade, não o celebra. Falámos da importância da vida.


 






Ela pergunta pelas coisas novas que vê pela casa, porque comprei isto ou aquilo. Ri-se numa interjeição entre o Ah! e o meu nome. Imagino que pense no meu bom ser louco!!